{"provider_url": "https://www.caceres.mt.leg.br", "title": "Foguinho, a chama que a cidade n\u00e3o soube cuidar", "html": "<p><span><em>A Secretaria de Imprensa da C\u00e2mara de C\u00e1ceres publica esse artigo do jornalista Esdra Crepaldi sobre Cristiano da Silva Duarte, mas conhecido como Foguinho, que infelizmente faleceu na quarta-feira (18/03), devido a uma s\u00e9rie de complica\u00e7\u00f5es em seu quadro de sa\u00fade. O artigo destaca a figura marcante de Foguinho e nos convida a refletir nossas atitudes e olhares enquanto sociedade, para essas pessoas marginalizadas. Uma leitura necess\u00e1ria. Segue abaixo:\u00a0\u00a0</em><br />&gt;&gt;&gt;&gt;&gt;<br /><br />C\u00e1ceres amanheceu mais silenciosa hoje. N\u00e3o por falta de barulho, mas por aus\u00eancia de uma presen\u00e7a que, por anos, fez parte da paisagem viva da cidade. Partiu Cristiano da Silva Duarte, 32 anos, o nosso conhecido Foguinho, figura que atravessava ruas, cal\u00e7adas e mem\u00f3rias com a mesma intensidade com que pedalava, livre, como quem n\u00e3o reconhecia fronteiras.</span></p>\r\n<p>Foguinho n\u00e3o era apenas um rosto conhecido. Era um daqueles personagens que a cidade adota, ainda que, muitas vezes, sem cuidar. Um jovem que viveu grande parte da vida nas ruas, carregando nas costas o peso de aus\u00eancias antigas, da fam\u00edlia, do Estado, da prote\u00e7\u00e3o que nunca veio.</p>\r\n<p>Andava de bicicleta como quem voava. \u201cEmprestava bicicletas\u201d, gostava, pegava, montava e ia sem se importar se era de algu\u00e9m. Diziam alguns, talvez sem entender que, para ele, pedalar era mais do que deslocamento, era fuga, era liberdade, era o sopro de vida que ainda resistia dentro de um corpo marcado pela neglig\u00eancia.</p>\r\n<p>Quando eu conduzia algum evento ou cerimonial, quantas vezes ele surgia, com aquele sorriso largo, quase infantil, perguntando: \u2014 Hoje vai ter show?</p>\r\n<p>E naquela pergunta simples havia mais do que curiosidade. Havia uma vontade de pertencimento. Uma tentativa de fazer parte de algo maior, de uma festa, de uma cidade que, no fundo, tamb\u00e9m era dele. Adorava cantar e dan\u00e7ar.</p>\r\n<p>Leia mais: Governo de MT destina R$ 167,1 milh\u00f5es para obras, entregas e a\u00e7\u00f5es sociais em Araputanga<br />Foguinho, um negro forte, esguio, queimado de sol, andava descal\u00e7o. Os cabelos avermelhados lhe deram esse apelido, e ele era, de fato, fogo. Era a pr\u00f3pria imagem da resist\u00eancia, um corpo em movimento constante, uma energia bruta, quase selvagem, que, em sua apar\u00eancia, insistia em existir apesar de tudo.</p>\r\n<p>Mas, por tr\u00e1s da leveza do sorriso, havia dor. Uma dor profunda e silenciosa, que poucos conseguiram, ou quiseram, enxergar. Sofreu viol\u00eancias, enfrentou o abandono, o desprezo, carregou transtornos que jamais foram acolhidos com o cuidado necess\u00e1rio. Quando vieram as tentativas de controle, vieram tamb\u00e9m os efeitos colaterais, o peso no corpo, o cansa\u00e7o, o apagar lento daquela chama inquieta que antes cruzava a cidade sobre duas rodas agora andava sem rumo. Mesmo em fa\u00edscas insistia em viver.</p>\r\n<p>E assim, aos poucos, Foguinho foi sendo silenciado em vida. Dormia no ch\u00e3o, vestia o que lhe davam, fazia de si mesmo resist\u00eancia at\u00e9 nos gestos mais b\u00e1sicos da sobreviv\u00eancia.</p>\r\n<p>Hoje, sua partida n\u00e3o \u00e9 apenas a morte de um homem. \u00c9 tamb\u00e9m o retrato de uma sociedade que falhou. Que viu, que reconheceu, que at\u00e9 nomeou, mas n\u00e3o acolheu como deveria.</p>\r\n<p>Leia mais: Por unanimidade, TRE nega recurso de Eliene e livra Francis de acusa\u00e7\u00e3o sobre gastos de campanha<br />C\u00e1ceres perde mais do que um personagem. Perde um peda\u00e7o de sua pr\u00f3pria alma. Assim como j\u00e1 chorou outras figuras que marcaram suas ruas, agora se despede de mais um filho, daqueles que n\u00e3o tiveram endere\u00e7o fixo, mas tinham lugar na mem\u00f3ria coletiva.</p>\r\n<p>Foguinho era, \u00e0 sua maneira, poesia viva. Uma poesia bruta, desorganizada, mas profundamente humana. Uma chama que resistiu enquanto p\u00f4de, mesmo sem vento favor\u00e1vel.</p>\r\n<p>Que agora encontre o acolhimento que lhe foi negado em terra.</p>\r\n<p>Que descanse em paz, livre, leve, talvez, enfim, pedalando sem dor, sem peso, sem abandono.</p>\r\n<p>E que a cidade, ao lembrar de Foguinho, n\u00e3o apenas sinta saudade\u2026mas tamb\u00e9m aprenda, pois ele passa a ser s\u00edmbolo de resist\u00eancia, de invisibilidade social e tamb\u00e9m da urg\u00eancia de um olhar mais humano para aqueles que vivem \u00e0 margem. Sua trajet\u00f3ria, marcada por aus\u00eancias e sil\u00eancios, convida \u00e0 reflex\u00e3o sobre o papel de cada cidad\u00e3o e das institui\u00e7\u00f5es na constru\u00e7\u00e3o de uma cidade mais justa, onde ningu\u00e9m seja apenas visto, mas verdadeiramente acolhido.</p>\r\n<p><strong>Esdras Crepaldi \u00e9 jornalista e poeta</strong></p>\r\n<p><strong>DRT 940 MT</strong></p>", "author_name": "", "version": "1.0", "author_url": "https://www.caceres.mt.leg.br/author/marciocamilo", "provider_name": "C\u00e2mara Municipal de C\u00e1ceres", "type": "rich"}